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quarta-feira, julho 26, 2006

Ainda estou vivo - mais ou menos.

Três semanas de gripe. O cara que conserta o meu computador também está gripado. Pelo menos as minhas bicicletas têm peças lindas e maravilhosas. A Vovô-Matic ganhou um avanço (Nitto Tectronic), pedais e pedaleiras (MKS), uma coroa (Rocket Ring) e uma catraca (White Industries).

A Master ganhou uma coroa (Rocket Ring), cubos para pista (IRO), e um pinhão fixo (Dura Ace). Agora posso ter o placer de suicidar-me num "fixie".



Os Ingleses têm um certo talento para criar desenhos inverosímeis. Isso aqui é uma bicicleta Flying Gate.

quarta-feira, junho 21, 2006

O meu computador está Kaputt, mas as minhas bicicletas vão ter peças novas dentro de pouco.

quarta-feira, maio 10, 2006

Ciao.
Vou embora por trinta dias.
I'll be gone for thirty days.

quinta-feira, abril 27, 2006

Pequenas Aventuras.

(in english after the portuguese)

Uma das razões pela qual eu gosto de andar de bicicleta é a facilidade com que um passeio corriqueiro pode virar uma pequena aventura. Isso aconteceu nos dois domingos passados. Mas, primeiro, um pouco de ciclo-pornô:




Isso aí é a nova bicicleta da companhia Phil Wood, fabricantes dos melhores cubos do mundo.

Bem, como estava dissendo, no Domingo 16 o Poti, eu e mais dois amigos fomos pra Ilha da Pintada.



Ilha da Pintada.

Não é um passeio maratônico, so 40kms mais ou menos. Só que esta vez o Poti diz:
- Já vocês pegaram a strada de chão que fica à direita? Eu quero ver o que tem por lá.
- Eu não.
- Eu também não.
E eu, que já visitei a ilha uma dúzia de vezes para comer o peixe na taquara que fazem os pescadores, tive que admitir que eu tambén não sabia pra onde ia aquela estrada de chão. Fomos lá. Que tinham? Mansões. Casebres. Uma pequena fazenda. Nada incrivel, mas foi uma aventura, um passo dentro do desconhecido.

E o Domingo passado, eu ia pro “Suco” pra comprar un copo de caldo de cana e um pastel. É um passeio de uns 75kms. Só que passei uma rua que eu não conhecia e pensei:
- Pra onde vai essa rua?

Ponta Grossa.


E o passeio virou uma aventura. Conheci Ponta Grossa, um bairro lindíssimo, artístico, com estradas de chão e túneis verdes.

Entre os passeios noturnos e as pedaladas diurnas eu estou pedalando uma média de 200kms semanais, mas o saco é que eu não tenho tido a oportunidade de sair da cidade. Vamos ver se este fim de semana vai ter tempo bom ou se vai cair um dilúvio.

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Little Adventures.

One of the reasons that I like pootling around o my bike is the ease with which an everyday ride can turn into a small adventure. That happened on the last two Sundays. But first, a little bike porn, the bike above. That’s Phil Wood’s new bike.

Well, as I was saying, on Sunday the 16, Poti, myself and two other friends went to the Ilha da Pintada. The ride is not a marathon, only 40kms more or less. The thing is that this time Poti said, “Have you ever taken the dirt road that goes off to the right? I want to see what’s over there.”
“I haven’t.”
“Me neither.”
And I, who have been to the island a dozen times to eat the “taquara fish” that the fishermen cook, had to admit that I didn’t know where the dirt road led. We went. What did we find? Mansions. Shacks. A small farm. Nothing incredible, but it was an adventure, a step into the unknown.

And again, last Sunday I was pedaling to the “Juice” to get a cup of sugar cane juice and a pastry. It’s about a 75km ride. The thing is I passed a street that I didn’t know and I thought, “Where does that street go?”

At that point, the ride became an adventure. I got to know Ponta Grossa, a beautiful neighborhood, very artistic, with dirt roads and green tunnels.

Between the night rides and the day trips, I’m pedaling an average of 200kms a week, the drag is that I haven’t had a chance to get out of the city. Let’s see if this weekend we’ll have good weather or a deluge.

terça-feira, abril 11, 2006

Paulo Afonso Brunetta.

(in english after the portuguese)

Quem é Paulo Afonso Brunetta? Eu não sei, mas gostaria de conhecê-lo. Há dois anos, eu achei esse mapa na internet e fiquei doido.



È um mapa duma viagem planejada por Paulo, uma circunavegação do Brasil visitando todos os parques nacionais no país. Eu não sei se ele fez a viagem ou não. Já tentei enviar um e-mail pra ele, mas foi devolvido. Procurei por ele no Google, mas só achei informação sobre outras viagens que ele já fez.

O mapa dele virou a minha fantasia, uma viagem de bicicleta dum ano (ou mais) pelo Brasil. Desde que eu vi o mapa, eu tenho planejado, pesquisado, e sonhado com essa viagem.

Simplesmente gostaria de agradecer o Paulo por ter-me dado um sonho.

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Paulo Afonso Brunetta.

Who is Paulo Afonso Brunetta? I don't know, but I'd like to know him. Two years ago, I found the above map on the internet and went nuts.

It's a map of a trip that Paulo planned, a circumnavigation of Brazil visiting all the national parks in the country. I don't know if he made the trip or not. I've already tried sending him an e-mail, but it was returned. I searched for him using Google, but I only found information about other trips that he had made.

His map turned into my fantasy, a year-long (or longer) bicycle trip around Brazil. Since I saw the map, I've planned, researched and dreamt with that trip.

I'd simply like to thank Paulo for having given me a dream.

segunda-feira, abril 03, 2006

Um Tombo.(in english after the portuguese)

Cada vez que eu começo pedalar uma bicicleta nova, eu fico ansioso até levar um tombo. Depois desse primeiro tombo, eu fico sossegado. Pode ser que eu seja supersticioso. Bem, eu já levei o meu primeiro tombo pedalando a Speed Master assim que agora posso pedalar a bike em paz e tranqüilidade.

O tombo aconteceu no sábado quando um amigo e eu voltávamos do sítio dele em Viamão, um passeio de ><90kms.

Viamão

Estávamos entrando em Alvorada, a capital dos assassinatos em Rio Grande do Sul, e pegamos uma descida maravilhosa. Eu, pelo menos, pensei que era maravilhosa. Botei a minha bunda pro ar, agarrei o guidão e fui possuído pelo Caboclo Campagnolo. Quando alcancei uns 40 ou 45kms/hra, um cidadão que estava pedalando perto do acostamento decidiu dobrar esquerda sem olhar para trás.

Alvorada

Eu não tive tempo de evadi-lo. Freei com todas as minhas forças para não machucar o cara, mas, ainda assim, bati na bicicleta dele e cai no chão. Não nos machucamos e, ainda mais importante, as nossas bicicletas ficaram ilesas.

Esta não foi uma semana de façanhas ciclísticas. Eu pedalei ><70kms de dia e mais ><90kms durante os passeios noturnos.

No domingo, eu fiz um passeio à Guaíba (><60kms). Sai de Porto Alegre junto com dois amigos, mas só deu para eu pedalar a 18kms/hra por causa da dor na minha bunda, assim que os perdi de vista e acabei pedalando sozinho.


E aqui, uma foto da nova encarnação da minha bicicleta para cicloturismo, a Vovô-Matic. Foto: Poti Silveira Campos.


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A Fall.

Every time that I start to pedal a new bike, I feel anxious until I fall. After that first spill, I feel relieved. Maybe I'm superstitious. Well, I had my first spill while riding the Speed Master so now I can pedal the bike in peace.

The fall happened Saturday, when a friend and I were returning from his sítio in Viamão, a ><90km ride. We were entering Alvorada, the murder capital of Rio Grande do Sul, and we hit a marvelous descent. At least I thought it marvelous. I put my butt up in the air, grabbled the handlebar and was possessed by the Caboclo Campagnolo. (A caboclo is a spiritual entity that possesses the participants of the African syncretic religions popular in Brazil.) When I hit 40 or 45kms/hr, a guy that was pedaling his bike next to the shoulder decided to make a left turn without looking back.

I didn't have time to avoid him. I braked as hard as I could so as not to hurt the guy. I hit his bike and wound up on the ground. Neither one of us was hurt. Well, I did wind up with a sore butt. More importantly, our bikes came through without a scratch.

I didn't go on any big trips this week. I pedaled ><70kms in the daytime and ><90kms during the night rides.

Sunday, I rode to Guaíba (><60kms). I left Porto Alegre along with two friends, but I could only pedal at 18kms/hr because my butt hurt. They were soon out of sight and I wound up pedaling alone.

And up there, you have a photo of my touring bike, the Vovô-Matic's current incarnation. Photo: Poti Silveira Campos.

domingo, março 26, 2006




Peguei A Master.
(in english after the portuguese)

Eu peguei um ônibus sábado e fui a Sta. Cruz do Sul. A viagem só demorou duas horas. Demorei treze horas para pedalar de volta a Porto Alegre.

A Master é leve como uma pena? Não. Tem componentes exóticos? Não. Tem marchas? Não. É um barato pedalar a bicicleta? Sim.

Depois de ajustar o banco e o guidão, e pagar o Luiz, é claro, eu saí de Sta. Cruz sentindo-me como uma águia. Eu voava pela estrada. Então, vi umas flores vermelhas a meu lado. As flores estavam estampadas numas bermudas imensas. Dentro das bermudas estava um rapaz. O rapaz pedalava uma MTB. Os chinelos dele faziam um barulhinho de plif plaf plif plaf enquanto ele pedalava. Bermudas, chinelos, rapaz e a MTB dele passaram-me a 35kms/hra. Minhas penas de águia murcharam.

Continuei pedalando pela 471, sentido Pântano Grande (><55kms), e decidi pernoitar lá. Achei uma pousada no centro da cidadezinha. Eu não sei o nome, porque não tinha letreiro. O que sim tinha era um exército de cimento no quintal. Eram duendes, anões, gansos, lagartixas, patos e gatos espalhados pela grama. Isso sem falar dos cogumelos, flores, e casas em miniatura.

Hoje pela manhã saí de Pântano Grande às 7 horas e pedalei os ><120kms até Porto Alegre. De tanto ajustar a bicicleta, minhas chaves Allen (chinesas e de má qualidade) ficaram redondas. Não deu para eu terminar os ajustes na bicicleta. Tive que fazer a viagem com o banco um pouco alto, o guidão um pouco baixo e os freios difíceis de operar. Mas, ainda com a bunda um pouco assada, eu me diverti um monte.

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I Got the Master.

I went to Sta. Cruz do Sul by bus on Saturday. The trip only took two hours. It took me thirteen hours to pedal the bike back to Porto Alegre.

Is the Master feather light? No. Does it have exotic components? No. Does it have multiple speeds? No. Is it a blast to pedal? Yes.

After adjusting the saddle and the handlebars, and paying Luiz, of course, I left Sta. Cruz feeling like an eagle. I flew along the highway. Then, I saw big red flowers next to me. The flowers were stamped on a huge pair of Bermuda shorts. Inside the shorts, there was a kid. The kid was pedaling an MTB. His flip-flops made a little noise as he pedaled, plif plaf plif plaf. The Bermudas, the flip-flops, the kid and his MTB passed me at 35kms/hr. My eagle feathers wilted.

I kept pedaling along the 471 in the direction of Pântano Grande (><55kms) and decided to spend the night there. I found a little pousada in the center of town. I don't know its name. It didn't have a sign. What it did have was a cement army in the yard. There were dwarves, elves, geese, caterpillars, ducks and cats spread all over the grass. That's without going on about the mushrooms, the flowers and the miniature houses.

I left Pântano Grande this morning at 7:00am and pedaled the ><120kms to Porto Alegre. I made so many adjustments to the bike that my Allen wrenches (crappy Chinese made) became round. I had to make the trip with the saddle a little too high, the handlebar a little too low and the brake levers in an awkward position. But, even with my but a little sore, I had a lot of fun.

sábado, março 18, 2006



(in english after the portuguese)
A Minha Bicicleta Nova.

A minha bicicleta "speed" está pronta na loja de Luiz Faccin em Sta. Cruz do Sul. É só pegar um ônibus até lá e voltar a Porto Alegre pedalando (><180kms). Ia fazer isso neste fim de semana, mas um calorão de 40 graus na sexta-feira fez-me mudar de idéia.

A bicicleta é uma Speed Master, um quadro de aço de 60cm feito na Argentina com desenho italiano. Ela tem uma marcha só (42/18).

Pra que eu quero uma bicicleta "speed" duma marcha só? Porque eu gosto da simplicidade mecânica e do desafio de subir lombas sem a ajuda de aparelhinhos que fazem "click". A bicicleta vai ser mais ágil e um pouco mais rápida que a Vovô-Matic.

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My New Bike.

My road bike is ready for pickup at Luis Faccin's bike store in Sta. Cruz do Sul. All I have to do is take a bus there and pedal back to Porto Alegre (><180kms). I was going to do that this weekend, but a 105F heat wave hit Friday and made me change my mind.

The bike is a Speed Master, a 60cm steel frame made in Argentina copying an Italian design. It's a singlespeed (42/18).

Why would I want a singlespeed road bike? Because I like the mechanical simplicity and the challenge of climbing hills without the help of things that go "click". The bike is going to have quicker handling than the Vovô-Matic. It's going to be a little faster too.

sábado, março 11, 2006

o café do lago

O Passeio da Sexta-Feira.
><35kms

(in English after the Portuguese)

Nos encontramos na frente do Café do Lago, no Parque da Redenção às 20:30. Éramos 30 ou 35 ciclistas.

Subimos pela Salvador França até a Perimetral. Alguns pensavam que íamos ao Shopping Iguatemi, outros que íamos até o aeroporto e outros que íamos pela Assis Brasil. Uns subiram, outros desceram e outros continuaram na reta. Nos espalhamos pela cidade como formigas até reunir-nos uma hora mais tarde na sorveteria Joia. Foi um passeio muito desorganizado, mas muito agradável.

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Friday's Ride.
><35kms

We got together in front of the Café do Lago (the Lake Café) in the Parque da Redenção (Redemption Park) at 8:30pm. There were 30 or 35 of us.

We climbed the Salvador França to the Perimetral, a new perimeter road. Some thought that we were going to the Shopping Center Iguatemi, others that we were going to the airport and others that we were going along Assis Brasil. Some riders went up, others down and others kept on going straight. We spread out all over the city like ants until we got back together an hour later at the Joia ice cream parlor. It was all very disorganized, but very pleasant.


a bike sul


O Passeio da Quarta-Feira.
><30kms

(in English after the Portuguese)

Nos reunimos na frente da Bike Sul às 19:30. Éramos um enxame de ciclistas, 45 ou 50. Quando tantas pessoas participam dum passeio, os organizadores têm uma tarefa um pouco complicada.

Eu não sou um dos organizadores. Deus me livre. Mas, como é que o Anderson e o Rubens nos dirigem? Pois é usando as táticas dos cachorrinhos que controlam as ovelhas. Tal como funciona com as ovelhas, funciona com a gente. Eles circulam ao redor do grupo assobiando e gritando até criar uma massa compacta. Então, o Anderson começa pedalar na frente do grupo e, felizes porque tem um líder, as ovelhas o seguem. O Rubens fica atrás, controlando as ovelhas que tentam fugir e fazendo-nos manter uma velocidade uniforme.

Não fizemos nada de espetacular, mas sendo o Dia das Mulheres, as meninas (posso usar essa palavra ou serei linchado?) do grupo receberam uma rosa, um chocolate e um papelzinho com uma linda frase escrita nele.

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Wednesday's Ride.
><30kms

We got together in front of the Bike Sul bicycle store at 7:30pm. We were a swarm of cyclists, 45 or 50. When so many people take part in a ride, the organizers' job gets a little complicated.

I'm not one of the organizers, thank God. But how do Anderson and Rubens control us? Well, it's by using the same tactics used by sheepdogs. It works on us just like it does on the sheep. They ride around us, whistling and shouting, until they achieve a compact mass. Then, Anderson pedals off in the front, and, happy to have a leader, the sheep follow. Rubens brings up the rear, watching out for strays and making sure that we keep a steady speed.

We didn't do anything spectacular, but since it was International Woman's Day, the girls (can I use that word or will I be lynched?) in the group each received a rose, a chocolate and a piece of paper with a sentimental phrase written on it.

quinta-feira, março 09, 2006




Dicas para um Audax.
(in English after the Portuguese)

Kent Peterson é um ciclista extraordinário. O ano passado, ele participou do Great Divide Race, uma competição de 4000kms pelas Montanhas Rochosas nos EUA. O percurso vai desde a fronteira com o Canadá até a fronteira com o México, quase todo por estradas de chão e trilhas. Os participantes não têm suporte nenhum. Kent fez essa viagem monumental pedalando uma MTB de aço e sem marchas (uma Redline Monocog). Ele pedalou os 4000kms em 22 dias, 3 horas e 20 minutos. Sem marchas.


Ele é um membro de SIR, Seattle International Randonneurs e tem muita, mas muita experiência participando em brevets de 1200kms e competições ainda mais longas.

Além disso, Kent é um cara muito legal.

Um membro do SIR escreveu para a lista porque queria melhorar a sua performance nos brevets. O Kent respondeu e eu achei que as dicas dele seriam úteis para os participantes de Audaxes aqui no Brasil. Kent me deu permissão para traduzir o que eu achasse interessante. Muito obrigado.

Desculpem o meu Português.

.......

"O meu método principal é não me preocupar com a rapidez. Eu meu preocupo com não ir devagar. Essas são duas coisas diferentes. Por exemplo, não tem velocidade mais devagar que ficar parado. Vamos dizer que você escolhe um pneu "rápido", leve e relativamente frágil. Isso faz sentido se você quer ir rápido, mas não faz sentido nenhum se você quer evitar ir devagar. Um pneu furado, e você não está indo rápido. Com um pneu um pouco mais resistente e pesado, as chances que você vai poder continuar melhoram.

Dá para ver uma diferença muito grande nos postos de controle entre os randonneurs com experiência e os novatos quando eles descem de suas bicicletas. O pessoal com experiência passa o controle com rapidez. Às vezes é necessário descansar um pouco, mas quanto mais tempo você fica encima da bicicleta, mais longe irá pela estrada. Jan Heine, um cara experiente e rápido, aconselha comer e pedalar ao mesmo tempo e muitos, mas muitos randonneurs fazem isso. Mais uma vez, movimentar-se é mais rápido que ficar parado."

....

"Eu te aconselho que pratiques subir lombas e pedalar de noite. Audaxes têm subidas e, os mais longos quase sempre têm trechos noturnos (a menos que você seja muito, muito, muito rápida) Eu nunca me preocupo com descer rapidamente (eu não presto nas descidas) mas eu me esforço para que as subidas não me façam ir muito devagar. Pedalar de noite, como qualquer atividade, melhora com a prática.

Pede dum amigo para ele observar-te em quanto tu pedalas de noite com teus faróis e equipamento. Assim saberás o que é mais visível. Boas luzes e equipamento refletivo ajudam muito para melhorar a tua segurança e confidencia na estrada."

.....

"Ninguém tem faróis que possam iluminar 1200kms de estrada. No máximo, teu farol vai iluminar um pedacinho da estrada na tua frente. Entra nesse pedacinho de luz e verás que teu farol agora ilumina um pedacinho de estrada um pouco mais adiante. Entra nesse pedacinho de luz. Repete quantas vezes seja necessário."

..........

"Eu te pergunto o seguinte: O teu plano de treinamento foi te dado escrito em tabuletas de pedra o foi uma voz dum arbusto em chamas que te diz exatamente quanto tu vais ou não vais pedalar?

Só tu podes saber se estás treinando ou não. Eu conheço pessoas que pedalam uma series de Audax e que, fora disso, fazem passeios de 50kms. Eu conheço um cara que pedalou o Paris-Brest-Paris (1200kms) doente, subsistindo de bolachas salgadas e Sprite sem gas. Também conheço muitas pessoas que não terminaram um Audax e outros que chegaram até o fim.

A maioria das pessoas que não terminam um Audax, não é por falta de velocidade. É por falta de convicção. Se você pensa que não está preparado, a chance de que vossas dúvidas vão triunfar é muito maior. Ninguém SABE que pode terminar um Audax. Pensamos que podemos. Fazemos o Audax pra ver se estamos certos.

O meu conselho é o seguinte: Pensa menos sobre o treinamento e mais sobre a preparação. A quilometragem não é tão importante como saber o que teu corpo faz nesses quilômetros. Um carro de competição não vai a lugar nenhum sem gasolina no motor ou ar nos pneus. Sabe qual è o combustível para o teu motor? Sabes como concertar pneus? Sabes como a tua bike manobra na chuva? Sabes como é pedalar de noite? E, a coisa mais importante é, tens uma mente flexível que pode lidar com coisas que não antecipastes?

Posso te dizer que teus Audaxes não vão rolar como planejastes. Pode ser que vão, mas não apostes nisso. Tens que estar pronta para fazer planos novos e executá-los.

Parece que estás pirando porque o teu treinamento não está indo como planejastes. Esquece a piração. Tens que te adaptar. Faz novos planos. Isso é o que vais ter que fazer na estrada de qualquer jeito".

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Hints for Randonneurs.

Kent Peterson is an extraordinary cyclist. Last year, he rode in the Great Divide Race, 2500 miles through the Rocky Mountains. The route goes from the Canadian border to the Mexican border, almost all of it dirt roads and trails. The racers have no support. Kent made that monumental trip pedaling a singlespeed MTB (a Redline Monocog). He pedaled the 2500 miles in 22 days, 3 hours and 20 minutes. On a singlespeed.

He's a member of SIR, the Seattle International Randonneurs and has a lot, really a lot of experience participating in 1200km brevets and in longer competitions.

On top of that, he's a really NICE guy.

A SIR member wrote to the list because she wanted to improve her performance on the brevets. Kent answered her and I found that his hints would be useful to the Audax participants in Brazil. Kent gave me permission to translate the portions that I thought would be of interest.

Thank you very much.

To see the original posts, visit Kent's blog.

terça-feira, março 07, 2006


Passeio da Segunda-Feira.
+ou-30kms.

(in English after the Portuguese)

Porto Alegre fica encima de mais de quarenta morros (43? 48? Não me lembro). Todo passeio vai ter uma subidinha. A subida que leva ao shopping Iguatemi não é muito íngreme, mas é comprida.

Lá pelas 20:30, a turma de 12 ou 15 ciclistas partiu do Ecoposto Ipiranga. O que o posto tem de "ecológico", eu não sei, mas é um lugar conveniente para nos reunir e calibrar os pneus.

Subimos a ladeira até o shopping. Eu insisti que a gente deveria parar e comprar comida chinesa, mas ninguém me seguiu a onda. Descemos até a Assis Brasil e voltamos pela Farrapos, para o entretenimento de todas as prostitutas (mulheres, homens, travestis e transexuais).

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Monday's Ride.

Porto Alegre is built on top of more than 40 hills. 43? 48? I don't remember. Every ride is going to have a climb. The climb that goes to the Shopping Center Iguatemi is not very steep, but it's long.

Around 8:30pm, the group of about 12 or 15 cyclists left from the Ipiranga Ecoposto gas station. I don't know what makes the place an "ecological" gas station, but it's a convenient place to gather and put some air in our tires.

We climbed the hill up to the shopping center. I insisted that we should stop and get some Chinese food, but no one else wanted to do that. We coasted down to Assis Brasil and returned via Farrapos to the amusement of all the prostitutes (women, men, transvestites and transsexuals).


Passeio do Domingo.
+ou-80kms

(in English after the Portuguese)

Eu me diverto pedalando e para isso não tenho que pedalar centenas de quilômetros. A Reserva Biológica do Lami fica mais ou menos quarenta quilômetros de minha casa. Dá para almoçar no Suco, passear por algumas estradas de chão e voltar para casa descansado e feliz.

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Sunday's Ride.

I have fun pedaling my bike and, for that, I don't have to pedal hundreds of kilometers. The Lami Biological Preserve is about 40 kilometers from my house. I can have lunch at the Suco (The Juice), pootle along a few dirt roads and return home fresh and happy.

domingo, fevereiro 26, 2006



Carnaval.
O país está fechado.

Acho que a garota na foto está apropriadamente fardada para participar num Audax.

sábado, fevereiro 11, 2006



Akshobia.


Três Coroas.
(200kms mais ou menos)
(in English after the Portuguese)


O Brasil tem igrejas católicas e evangélicas, terreiros de candomblé e umbanda, sinagogas e mesquitas, centros espíritas e de ioga e eu até vi grupos de Hare Krishnas desfilar pelas ruas tocando mantras hindus com ritmo de samba, mas eu nunca ouvi falar dum centro budista tibetano brasileiro. Quando soube que tem um em Três Coroas, a minha curiosidade fez-me visitar o centro Khadro Ling (entrem no site ao lado da foto).

Trajeto:
(distancias segundo o meu mapa)
Ida - Sertório, Assis Brasil, Cachoerinha, a 020 até Taquara (75kms). A 115 até Três Coroas (21kms). Mais 8kms de estrada de chão até o centro budista.
Volta - centro budista até a 020 (1km). 020 até Taquara (20kms). Taquara - PoA a ida em sentido contrario.

Eu achei o trecho da 115 entre Taquara e Três Coroas bem chato. O que sobra da beleza natural está sendo ocultado por letreiros anunciando lojas de malhas. As chácaras estão virando lojas de fábrica de sapatos feios.

A cidadezinha de Três Coroas está CHEIA de ciclistas. Todas as lojas têm onde estacionar bicicletas na frente. Até o Bar dos Velhinhos tem. Mães, pais e filhos pedalam juntos, às vezes todos acima da mesma bicicleta. A hora do rush é um enxame de bicicletas pelas ruas que deixa aos motoristas apavorados. Eu gostei.

O tal do Bar dos Velhinhos é um bom lugar onde jantar, bater papo e ver bicicletas que deveriam estar num museu. Na frente do bar fica a pensão de dona Teresinha, um lugar barato limpo e legal. A crise do dia na pensão era que a dona Teresinha tinha comprado um pássaro que cantava muito bem. O pássaro cantou por uma semana, começou perder as penas e deixou de cantar. A dona ficou apavorada. Todos os peritos da cidade foram consultados,

- Pois é assim mesmo, dona. É normal. É a época do ano.

Dona Teresinha ficou mais tranqüila.

A subida até o centro budista é bem íngreme. Nesses oito quilômetros eu viajei aos tempos dos primeiros colonos (Só que eles não tinham antenas parabólicas no quintal). Vi pequenas casas no meio do mato, bem cuidadas, rodeadas de plantações de milho, aipim, frutas, feijão, tudo do que uma família precisa para ter uma mesa farta. Os homens que vi eram grandes e fortes, as mulheres, gordas e fortes, as crianças, gordas, fortes e prontas para aterrorizar os cachorros e as galinhas. Miséria, eu não vi.

A Vovô-Matic não tem marchas, assim que eu tive que empurrar a bicicleta por quatro quilômetros. Eu acho que quem vai numa bicicleta com marchas só terá que caminhar um quilômetro.

A vista desde o centro budista é de tirar o fôlego. Dá para ver todo o aqüífero do Vale dos Sinos. Eu acho que esse é o nome certo. Não achei no meu mapa. As cidades não são mais que pequenas manchas numa paisagem verde que se mistura no horizonte com as nuvens dum céu do mais puro azul.

O centro é uma bela introdução à arquitetura e iconografia religiosa dos budistas tibetanos. A administração, o salão para estudo e meditação e as imagens cerimoniais ficam num prédio central, como um Potala em miniatura. Ao lado desse prédio tem outro cheio de gigantescos cilindros de orações (não sei se esse é o nome certo) com dois andares de altura e dois metros de diâmetro que giram constantemente. Eu não sei se são movimentadas por motores elétricos, água ou o vento, mas eu fiquei impressionado com essas preces mecânicas.

Uma fileira de estupas (acho que é "chorten" em tibetano), monumentos em forma de cúpulas com três ou quatro metros de altura onde são guardadas relíquias e oferendas com significados místicos, fazem companhia a Budas imensos pintados em cores brilhantes.

Eu fiz a circunambulação costumaria aos monumentos, agradeci ao monge brasileiro pela gentileza de ter-me deixado entrar com as minhas bermudas de ciclista e fui embora. Espero ter acumulado um pouco de mérito para as próximas três ou quatro reencarnações.

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Três Coroas (Three Crowns).
(200kms more or less)

Brazil has Catholic and Evangelical churches, Candomblé and Umbanda centers, synagogues and mosques, spiritist and yoga centers and I even saw groups of Hare Krishnas parading through the streets playing Hindu mantras with a samba beat, but I never heard of a Brazilian Tibetan Buddhist center. When I found out that there was one in Três Coroas, my curiosity made me visit the Khadro Ling center (go see the site next to the photo).

Route - see the Portuguese.

I found the stretch of the 115 between Taquara and Três Coroas pretty dull. Billboards advertising clothing stores hide the remaining natural beauty. The chácaras (small holdings) are turning into factory outlets selling ugly shoes.

The little city of Três Coroas is FULL of cyclists. All the stores have bike racks out in front. Even the Bar dos Velhinhos (Little Old Men's Bar) has a bike rack. Mom, dad and the kids all pedal together, sometimes all on the same bike. At rush hour, the streets swarm with bicycles, intimidating the motorists. I liked it.

The above mentioned Bar dos Velhinhos is a good place to eat, talk and look at bicycles that should be in a museum. Dona Teresinha's pension is across the street. It's cheap, clean and a blast. The day's crisis at the pension was that Dona Teresinha had bought a songbird. It sang wonderfully for a week, began to lose its feathers and stopped singing. The dona was heartbroken. All the local experts were consulted.

"That's the way it is, dona. It's normal. It's the time of year."

Dona Teresinha felt much better.

The climb to the Buddhist Center is pretty steep. In those eight kilometers, I traveled back to the time of the area's first settlers (the only difference being that they didn't have parabolic antennas in their yards). I saw small well-kept houses in the middle of the forest. They were surrounded by fields of corn, manioc, fruits, beans, in short, everything that a family needs to eat well. The men that I saw were big and strong, the women were fat and strong, the children were fat, strong and ready to terrorize the dogs and the chickens. I didn't see any misery.

The Vovô-Matic is a singlespeed, so I had to push the bike for four kms. I think that someone with a geared bike would only have to walk one.

The view from the Buddhist Center is breathtaking. You can see the whole Vale dos Sinos (Bell Valley) aquifer. I think that that's the right name. I couldn't find it on my map. The cities are little smears on a green landscape that blurs and mixes with the clouds along the horizon in a sky of the purest blue.

The Center is a beautiful introduction to the Tibetan Buddhist religious architecture and iconography. The administration, the meditation and study hall and the ceremonial images are in the central building, a miniature Potala. Next to it, is another building filled with gigantic prayer wheels two stories high by two meters in diameter. They are constantly turning. I don't know if they are moved by electric motors, water power or wind power. I do know that the mechanical prayer system amazed me.

A line of stupas (I think that they are chorten in Tibetan), monuments in the shape of cupolas three or four meters high where relics and offerings with mystical significance are kept, keep company with giant Buddhas painted in brilliant colors.

I made the customary circumambulation of the monuments, thanked the Brazilian monk for allowing me to enter wearing my cycling shorts and left. I hope to have accumulated a little merit towards my next three or four reincarnations.

segunda-feira, janeiro 30, 2006


Essa aqui SIM é a nascente do Rio dos Sinos. Foto e correção cortesia de Ricardo Pelisoli.



Caraá.
Um passeio de três dias.
(in English after the Portuguese)


Eu saí de Porto Alegre pelo corredor da Sertorio, Assis Brasil, Cachoerinha e Gravataí. Porque não saí da área metropolitana pedalando pelo largo e seguro acostamento da 290 (a freeway)?

Porque os Deuses Rodoviários (é quase infinita a bondade deles) acharam que os ciclistas de Porto Alegre precisavam de mais treinamento em como evadir carros, ônibus e caminhões. Eles fecharam a 290 ao transito de bicicletas para dá-nos mais uma oportunidade de exercitar os nossos talentos ciclísticos. Eu, por exemplo, tive que mostrar o máximo de agilidade em Cachoerinha para não virar tapioca.

Trajeto:
(distancias segundo o meu mapa)
Ida - Cachoerinha, Gravataí, RS030 até Sto. Antônio da Patrulha (70kms). Estrada de chão até Caraá (12kms).
Em Caraá - mais ou menos 50kms por estradas de chão.
Volta - a ida em sentido contrário.

Achei o começo da RS030 em Gravataí. A estrada não tem um acostamento pavimentado, mas ela tem tão pouco movimento que dá para pedalar no asfalto com segurança. Deixei atrás a paisagem urbana. A cada lado apareceram sítios e chácaras. Eu comecei achar o passeio agradável.

O que é que eu acho agradável? A sombra duma árvore de vez em quando. Paisagens verdes que se perdem na distância. Casinhas pintadas de cores alegres e com nomes como "Sitio da Vó Edelmira". Pequenas lojas que vendem produtos coloniais. Vacas, cavalos e ovelhas. Velhinhos de bombachas e chapéus de palha pedalando bicicletas mais velhas que eles. Subidas suaves. Descidas longas. Um céu azul com nuvens estrategicamente colocadas para ocultar o sol. Coisas assim.

Empanturrei-me num bufê livre em Glorinha, uma pequeníssima cidade a 20kms de Gravataí. O lugar tem acesso à 290 e isso causa que o movimento na estrada se intensifique um pouco. O acesso ao freeway incentivou umas imobiliárias a oferecer terrenos aos que querem fugir de Porto Alegre. Eu espero que não dê certo. Uma população sem vínculos ao lugar destruiria Glorinha.

Comparada com Glorinha, a cidade de Sto. Antônio da Patrulha é uma metrópole sofisticada. Tem até um supermercado Nacional. É na frente desse supermercado que começa a pequena rua que dá acesso à Caraá.

Um quilômetro de asfalto vira uma ruazinha pavimentada com os paralelepípedos do inferno, pedras pontiagudas e afiadas prontas para devorar os pneus dos ciclistas que passam por ali. Por sorte, os sadistas que pavimentaram esse trecho desistiram depois dum quilômetro e meio e a rua vira uma estrada de chão que sobe e sobe e sobe. Eu tive que empurrar a Vovô-Matic por dois trechos de um ou dois quilômetros cada.

As moradias na beira da rua também mudam durante a subida. Um modesto subúrbio vira uma mini-favela que dá lugar a pequenas chácaras e elas vão crescendo até virar sítios ao lado de riachos.

Em quanto eu subia, caminhões me ultrapassavam cada quinze ou vinte minutos. As nuvens de poeira que levantavam me encobriam dos pés à cabeça e o pó grudava-se ao bloqueador solar que eu estava usando. Em fim, cheguei à Caraá parecendo com um bife à milanesa.

O lugar marcado no mapa como Caraá é onde fica o posto de gasolina, os Correios e também onde fica o sindicato dos trabalhadores rurais. O resto da comunidade está espalhado pelos recantos do município.

Cheguei ao posto de gasolina e perguntei,

- Por gentileza, como faço para chegar à Pousada Camélias Brancas?
- A pousada? Isso fica longe. São 15 ou 20 quilômetros.
- 15 ou 20 quilômetros? Não tem um camping mais perto que isso?
- Tem o Camping Praia João Fernandes.
- Fica longe?
- Três ou quatro quilômetros.
- E como faço para chegar lá?
- O senhor pega a "principal" e...

Que eu saiba, o município de Caraá não tem estradas pavimentadas. Tem a "principal" que é uma estrada de chão por onde passam os caminhões e os ônibus. Tem as estradinhas, que são muito mais estreitas, mas que dão para um carro transitar. Tem caminhos adequados para cavalos e tem trilhas que atravessam os rios usando pontes de arame. Estas últimas são sós para o uso de pedestres ou de ciclistas malucos como eu que atravessam a ponte empurrando a bicicleta.

O Camping João Fernandes fica na beira do Rio dos Sinos e oferece um campo de futebol, um campo de vôlei, churrasqueiras, chuveiros quentes, banheiros limpos e muitas árvores pelo preço risível de 3,00. Eu escolhi duas árvores perto do rio e pendurei a minha rede. O meu jantar foi de bolachas, doce de leite, rapadura e passas porque tinha esquecido de comprar comida no mercadinho que fica na frente do posto de gasolina e já era tarde demais para voltar.

Acordei cedo e com muita fome.

- Tem um mercadinho perto do camping?
- O senhor pega a principal e dobra esquerda. É mais perto do que voltar ao centro. (Gostei disso do "centro")
- Muito obrigado.

Depois de pedalar dois quilômetros, dobrei uma curva na "principal" e me encontrei na frente dum sobrado antigo de dois andares. Parecia um castelo no meio daquele mato. Era o mercadinho. Mais tarde eu soube que tem até supermercados (pequenos) na área, mas nenhum é tão impressionante como aquele prédio antigo.

Comi dois sanduíches e bebi uma caixa de leite com chocolate.

- O senhor vai almoçar em Caraá?
- Acho que sim, porque?
- Porque a única lancharia fica ali na frente. Se o senhor vai almoçar, tem que avisar pra o dono ter suficiente comida.

Atravessei a estradinha e entrei na Lancharia Royal, um barracão cheio de mesas e anúncios pindurados nas paredes com moças exibindo seios fartos. O cheirinho dentro do lugar era bom.

- O que é que o senhor deseja?
- Gostaria de almoçar aqui.
- O que é que o senhor quer comer?
- Tem prato feito?
- Tem.
- Eu volto ao meio dia.
- Certo.

O primeiro lugar que eu queria visitar era a cascata da Vila Nova. Continuei pedalando pela "principal". Achei um pequeno letreiro, torto, mais legível: Vila Nova. Peguei a estradinha e perguntei duma velhinha,

- A senhora sabe onde é que fica a cascata?
- Vai lá até o final da estrada e pergunte na última casa.

Foi o que fiz.

- Tem que atravessar a ponte de arame e pegar o caminho pra cima. Dá pra ver onde o senhor tem que descer.
- Posso deixar a bicicleta aqui?
- Pode. Isso aqui não é a cidade.

Uma ponte de arama balança, range e parece que vai cair, mas agüenta. Ou será que não agüenta e por isso tem tantos pequenos cemitérios espalhados pela área?

Caminhei pelo mato até achar o lugar por onde eu tinha que descer, uma trilha íngreme cheia de lama que descia uns quarenta metros. Dava para eu descer, mas eu não sabia se eu ia poder subir de novo. Achei prudente adiar a minha visita à cascata para outro dia, para um dia mais seco.

Voltei à Lancharia Royal. O meu prato feito já estava pronto: dois pedaços de carne de porco assada, uma coxa, arroz, massa, dois tipos de vegetais, feijão preto e uma salada. Cada cinco minutos o dono passava pela minha mesa e perguntava se eu queria mais alguma coisa.

Depois do almoço visitei a Pousada Camélias Brancas. Só tive que perguntar duas vezes para achá-la. Imaginem um chalé suíço construído de troncos rústicos e telhas artesanais na beira dum rio cristalino e rodeado por árvores. É assim mesmo. Só que não tem camping. Eu não queria abrir mão da diária (45,00 por pessoa, incluindo 3 refeições) para ficar lá sozinho.

A dona da pousada me indicou o atalho para chegar à Estância dos Coqueiros, melhor conhecida como o sítio de seu Alberto. Peguei uma estradinha que virou uma trilha, que atravessou o rio por uma ponte de arame, que virou mais uma estradinha que me levou por um caminho íngreme que sumiu na entrada da estância. Fácil.

Eu nunca tinha visto uma roda de água funcionando, sós desenhos em livros de história. A roda move as pedras gigantescas dum moinho. Os vizinhos trazem o milho para moer e vão embora com a farinha, deixando uma percentagem dela na estância como pagamento. A roda de água também move a serra dum pequeno madeireiro.

Além disso, o lugar tem uma oficina primitiva para trabalhar ferro: a bigorna, um fole imenso, a forja, tudo. Eu não sou rico, mas se eu fosse, eu daria dinheiro para manter esse lugar como um tesouro nacional. Não só para preservar a estrutura física do lugar, mas, e mais importante, para preservar o conhecimento duma tecnologia artesanal quase extinta.

Também vi lá o maior touro que eu já vi na minha vida. As costas dele estavam a 1,80m de altura. Depois vinha a corcunda (como se chamam esses touros, Brahma?) e, lá encima, a cabeça imensa com uns cornos afiadíssimos. Ele me deu uma olhada de desprezo total. Eu era apenas um homem humano e ele era o macho mais macho daquela região.

Voltei ao Camping Praia João Fernandes no final da tarde. O dono estava preparando um churrasco. Um grupo de homens jogava cartas num canto. As mulheres fofocavam. Tudo era paz e tranqüilidade quando eu estendi minha rede entre duas árvores e me deitei.

Eu estava pegando no sonho quando escutei um pick-up chegar e as risadas duns adolescentes. Cinco minutos mais tarde o camping tremia sob o assalto de alto-falantes super poderosos. BUM BAM BUM PAGODE PAGODE. O barulho durou 45 minutos. Acho que o dono do camping convenceu a gurizada ir pra outro lugar.

Acordei cedo, arrumei a minha bagagem e desci até Sto. Antônio da Patrulha. Quando peguei a 030, eu comecei escutar um barulhinho, bup bap bup bap. Parei, conferi que os freios estavam ajustados, dei uma olhada nos pneus e não achei nada de errado. Continuei pedalando e o barulhinho voltou, bup bap bup bap. Dei uma olhada mais cuidadosa no pneu traseiro e vi que lhe faltava um pedaço de borracha.

Culpei os paralelepípedos infernais pelo pneu estragado e rezei para ele agüentar até eu passar por uma loja de bicicletas. O coitado do pneu (Kenda) soltou mais uns pedaços de borracha durante a volta, mas resistiu até Gravataí, onde comprei um pneu novo.

A pequena cascata na foto é a nascente do Rio dos Sinos. Em menos de 100 quilômetros, nos humanos conseguimos tornar um rio caudaloso e cristalino num canal de esgoto imundo. Temos que mudar ou o planeta vai livrá-se de nos.

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Caraá.
A three day bicycle trip.

I left Porto Alegre via the corridor formed by Sertorio, Assis Brasil, Cachoerinha and Gravataí. Why didn't I leave the metropolitan area by pedaling along the wide and safe shoulders of the 290 (also known as the freeway)?

Because the Highway Gods (their mercy is almost infinite) decided that Porto Alegre's cyclists needed more training in the fine art of evading cars, buses and trucks. They closed off the 290 to bicycle traffic to give us more opportunities to exercise our cycling talents. I, for example, had to use my agility to the maximum in Cachoerinha or I would have been turned into road kill.

Route:
(distances according to my map)
Going - Cachoerinha, Gravataí, RS030 to Sto. Antônio da Patrulha (70kms). Dirt road to Caraá (12kms).
In Caraá - more or less 50kms of dirt roads.
Return - reverse of going.

I found the start of the RS030 in Gravataí. The road doesn't have paved shoulders, but it has so little traffic that it's safe to pedal along the pavement. I left the urban landscape behind. Sítios and chácaras began to appear by the side of the road. A sítio is rural property of 10 to 50 acres. A chácara is smaller, having from one to 10 acres. I started to find the trip pleasant.

What is pleasant? A shady tree now and then. Green landscapes that disappear in the hazy distance. Little houses painted in cheerful colors with signs like "Granny Edelmira's Sítio". Small stores that sell homemade cheeses, breads and sausages. Cows, horses and sheep. Little old men wearing straw hats and bombachas (the extremely wide pants favored by horse riding gauchos) pedaling bicycles older than they are. Gradual climbs. Long descents. A blue sky filled with clouds strategically placed so as to hide the sun. Things like that.

I stuffed myself at an all-you-can-eat buffet in Glorinha, a tiny city 20kms from Gravataí. The place has a freeway exit, so the traffic along the 030 intensifies a little bit. The exit encouraged a few real estate developers to offer lots for sale to those that want to escape from Porto Alegre. I hope that they don't do well. A population without ties to the place would destroy Glorinha.

Compared to Glorinha, the city of Sto. Antônio da Patrulha is a sophisticated metropolis. It even has a Nacional supermarket, a national chain. The small street that gives access to Caraá starts in front of the supermarket.

After a kilometer of asphalt, the street becomes even smaller and is paved with the cobblestones from hell. They are sharp pointy rocks ready to devour the tires of any cyclist that dares to ride over them. Luckily, the sadists that paved this stretch of road gave up after one and a half kilometers and it becomes a dirt road that climbs and climbs and climbs. I had to push the Vovô-Matic up a couple of stretches of one or two kilometers each.

The houses along the road change along with the climb. A modest suburb changes into a mini shanty town and that gives way to small chácaras that grow bigger until they turn into sitios along the banks of small creeks.

While I was climbing, trucks passed me every 15 or 20 minutes. The clouds of dust they raised covered me from head to foot. The dust glued itself to the sun block I was using. I arrived in Caraá looking like a breaded steak.

The place that is marked on the map as Caraá is where the gas station, the post office and the rural workers union are located. The rest of the community is spread out over the county.

I got to the gas station and asked, "How do I get to the Camelias Brancas Inn?"
"The inn? That's far. It's about 15 or 20 kilometers."
"15 or 20 kilometers? Isn't there a campground closer by?"
"There's the Joao Fernandes Beach campground.
"Is it far?"
"Three or four kilometers.
"How do I get there?"
"You take the main road and..."

I think that Caraá county doesn't have any paved roads. There's the main road, a dirt road used by trucks and buses. There are the single lane roads, wide enough for a car. There are paths suitable for horses and trails that cross the rivers over small cable suspension bridges. These are for pedestrian use only or for the use of insane cyclists such as myself that push their bikes across.

The Joao Fernandes campground is located on the shore of the Sinos River and offers a soccer field, a volleyball court, BBQ grills, hot showers, clean bathrooms and lots of trees. The price is a laughable $1.25 a night. I picked out two trees near the river from which to hang my hammock. My dinner was salted biscuits, milk candy, a block of molasses and raisins. I had forgotten to buy food at the little market across the street from the gas station and it was too late to go back.

I awoke early and very hungry.

"Is there a little market close to the campground?"
"Take the main road and turn left. It's closer than going back downtown." I liked the "downtown" part.

After pedaling for two kilometers, I rounded a curve on the main road and found myself in front of an old two story mansion. It looked like a castle in the middle of the trees. It was the market. Later, I found out that there are other small supermarkets in the area, but none so impressive as that old building.

I ate two sandwiches and drank a box of chocolate milk.

"Are you going to eat lunch in Caraá?"
"I think so. Why?"
"The only place that serves lunch is there across the street. If you're going to eat lunch, you have to tell them ahead of time so that the owner will have enough food for you."

I crossed the little dirt road and entered the Royal Lunchroom, a shaky structure filled with tables and advertisements on the wall showing girls with very ample bosoms. The smell inside was good.

"What do you want?"
"I'd like to eat lunch here."
"What do you want to eat?"
"Do you have a set plate?"
'I do."
"I'll come back at noon."
"OK."

The first place that I wanted to visit was the Vila Nova falls. I continued pedaling along the main road and found a tiny crooked sign, "Vila Nova". I went down the tiny dirt road and asked a little old lady, "Do you know where the falls are?"
"Go to the end of the road and ask at the last house."

That's what I did.

"You have to cross the cable bridge and go up the trail. You'll see where you can climb down to the falls."
"Can I leave my bike here?"
"Of course you can. This isn't the city."

A cable suspension bridge swings back and forth, creaks and seems like it's going to fall down, but it doesn't. Or is it that sometimes it does and that is why there are so many small cemeteries dotting the countryside?

I walked through the woods until I found the place where I had to climb down to the falls. It was a very steep trail, covered with mud and went down for 40 meters. I thought that I could climb down, but I didn't know if I could climb back up again. I thought it wiser to postpone my visit to another and drier day.

I returned to the Royal Lunchroom. My plate was ready, two large pieces of roasted pork, a drumstick, rice, pasta, two types of vegetables, black beans and a salad. The owner came by every five minutes to see if I wanted any more food.

I visited the Camelias Brancas Inn after lunch and only had to ask twice in order to find it. Imagine a Swiss chalet built with raw tree trunks and hand made roof tiles sitting on the shore of a crystal clear river and surrounded by old growth trees. It's like that. The problem was that they didn't accept campers. I didn't want to pay the daily room rate ($20 per person including three meals) just to stay there by myself.

The owner of the inn explained to me the shortcut to get to the Estancia dos Coqueiros, better known as Sr. Alberto's place. I took a little road that turned into a trail that crossed the river over a cable suspension bridge that led to another little road that climbed a steep path that came to an end and the entrance to Sr. Alberto's place. Simple.

I had never seen a working water powered mill, just drawings of them in history books. The water wheel provides the power to the millstones through a system of pulleys. The neighbors bring their corn to be ground and take away the flour, leaving a percentage behind as payment. The water wheel also powers a small sawmill.

Sr. Alberto's also boasts of a complete smithy with a forge, large bellows, anvil and all the tools. Everything. I'm not rich, but if I were, I would give money to maintain the place functioning as a national treasure. Not only to preserve the physical buildings, but, more importantly, to preserve the knowledge of a pre-industrial technology that is almost extinct.

I also saw the biggest bull that I have seen in my life. His back was about six feet high. Then came his hump (what are those bulls called, Brahma?) and, way above that was his huge head with a set of very sharp horns. He gazed at me with total disdain. After all, I was a mere male human and he was the machoest macho in the region.

I returned to the campground by late afternoon. The owner was getting a BBQ together. A group of men were playing cards. The women were gossiping. It was quiet and peaceful when I stretched out my hammock between two trees and laid down.

I was almost asleep when I heard a pickup truck drive up and the laughter of a group of adolescents. Five minutes later, the campground shook under the assault of super powerful speakers. BUM BAM BUM ROCK & ROLL. The hellish noise lasted for 45 minutes. I think that the campground's owner convinced the teens to go someplace else.

I woke up early, packed up my gear and descended to Sto. Antônio da Patrulha. When I hit the 030, I began to hear a little noise, bup bap bup bap. I stopped and checked that my brakes were properly adjusted and that my tires were O.K. I didn't see anything obviously wrong, so I kept going. The noise came back bup bap bup bap. I took a closer look at my rear tire and saw that the tread was missing a piece of rubber.

I blamed the damage on the cobblestones from hell and prayed that the tire would hold up until I passed a bike store. The poor tire (Kenda) lost a few more bits of rubber on the way back to Porto Alegre, but it held up until I reached Gravataí, where I bought a new tire.

The small waterfall in the photo is the source of the Sinos River. In less than 100 kilometers, we humans manage to turn a wide crystal clear river into a filthy sewage canal. We have to change our ways or the planet is going to change them for us.

terça-feira, janeiro 24, 2006



Um Desmaio.

(in English after the Portuguese)

Desmaiei durante o passeio noturno ontem, segunda-feira. Tínhamos parado para esperar todo o mundo chegar ao topo da ladeira na Salvador França, quando me deu uma tontura e a minha pressão despencou. Eu acordei deitado sobre a grama à beira da rua com alguém batendo nas minhas bochechas e outra pessoa tentando dá-me água. Sentia-me relaxado, descansado e cheio dum bem estar maravilhoso. Foi uma experiência muito agradável. Só que fiquei constrangido por ter estragado o passeio.

Quero agradecer todas as pessoas presentes por agir dum jeito responsável e solidário. Mandaram-me pra casa. Estou muito obrigado ao parceiro que tomou conta de mim e me acompanhou até minha casa (não sei se ele quer o nome dele publicado aqui).

E agora, o que é que eu vou fazer?

É obvio que preciso dum bom exame médico.

Se Deus quer, vou continuar explorando este mundo lindo e maravilhoso no pedal.

Não vou participar dos passeios. Seria chato demais preocupar todo o mundo com a minha presença,

- Ele vai cair de novo?
- O que tu achas, ele vai desmaiar hoje?
- Está pálido o coitado.
- Eu não sei se devemos seguir por ali. Será que vai dar uma coisa nele?

Sim, chato mesmo.

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A Fainting Spell.

I fainted during yesterday's (Monday) night ride. We had stopped to wait for everyone to make it up the hill on Salvador França when I felt dizzy and my blood pressure plummeted. I woke up lying on the grass by the side of the road with someone slapping my cheeks and someone else trying to give me water. I felt relaxed, rested and filled with a marvelous sense of well-being. It was actually a very pleasant experience. I did feel bad that I had spoiled the ride.

I want to thank everyone present for behaving in a supportive and responsible manner. They sent me home. I'm very much in debt to the ride partner that accompanied me home. (I don't know if he wants his name published here.)

And now, what am I going to do?

It's obvious that I need a good medical check-up.

God willing, I'm going to continue exploring this marvelous world on my bike.

I'm not going to take part in any more group rides. It would be a downer to worry everyone with my presence.

"Is he going to fall down again?"
"What do you think, is he going to faint today?"
"He's looking pale, poor guy."
"I don't know if we should go that way. Something may come over him."

Yes, definitely a downer.

sexta-feira, janeiro 13, 2006


Rio Pardo

Rio Pardo
(in English after the Portuguese)
Uma viagem de bicicleta de mais ou menos 385kms em três dias.

A semana passada, eu tinha planejado pedalar a Rio Pardo na quarta-feira. Na segunda-feira, o encanamento de minha casa entupiu. O encanador prometeu vir na terça, mas não apareceu em casa. Também não veio na quarta-feira. O Seu Encanador chegou concertar o cano na quinta-feira e a minha viagem começou na sexta, com o calorão.

Trajeto:
Ida: A BR116 a 290. A 290 a Pântano Grande. A 471 a Rio Pardo.
Volta: A 471 a Sta. Cruz do Sul. A 287 a 405/244. A 405/244 a General Câmara (a 401). A 401 até a 290. A 290 a Porto Alegre.

Quilometragem (segundo o meu mapa):
Porto Alegre a Rio Pardo 160kms
Rio Pardo a Sta. Cruz do Sul 30kms
Sta. Cruz do Sul a Vale Verde 50kms
Vale Verde a Porto Alegre 145kms

Deixei a minha casa às 7:00. Saindo de Porto Alegre, três pontes pulam o Parque Estadual do Delta do Jacuí. Centenas de catadores de lixo moram nas três ilhas principais do parque. Montes de lixo rodeiam os casebres deles. Nessas ilhas também moram pequenas comunidades de pescadores. Eles vendem um peixe frito maravilhoso. Uma dúzia de mansões caríssimas com iates atracados no quintal dá um pouco de ironia social à paisagem.

Eu atravessei as pontes e pedalei até a 290. Esses 25kms têm o que qualquer acostamento duma rodovia principal tem, postos de gasolina, posto de pedágio, borracharias e restaurantes. É bom comprar água nesse trecho porque nos seguintes 25kms só tem arrozais, um pequeno aeroporto, e pronto.

O terreno começa mudar depois disso. A estrada vai subindo uma série de colinas com fazendas a cada lado. Acho que vacas gostam de ciclistas. Sempre me olham com muita simpatia. Passei o Guaiba Country Club e, depois, o MST Country Club (um acampamento de plástico preto). Os ricos e os pobres estavam fazendo as mesmas coisas: tomando cerveja, preparando um churrasco e tomando banho, os pobres no riacho, os ricos em piscinas.

Vale a pena parar em Arroio dos Ratos, tomar um banho refrescante no arroio, comprar um lanche e visitar o Museu do Carvão, a primeira usina a usar carvão no Brasil.

Depois de comer um Xis, segui até Butiá, que fica uns 20kms de Arroio dos Ratos. Comprem água e uma merenda lá. E, se furam um pneu, furem o pneu na lancharia que fica ao lado da borracharia como eu fiz. Não tem onde comprar coisa alguma nos próximos 42kms até chegar ao mercadinho em Pântano Grande onde peguei a 471 e pedalei mais 25kms, atravessando a ponte sobre o rio Jacuí. Cheguei a Rio Pardo às 18:30.

Saibam que a primeira rua pavimentada em Rio Grande do Sul fica em Rio Pardo. Todo o mundo queria que eu soubesse esse detalhe. Agora vocês sabem também.

Dei uma volta pela cidadezinha cheia de prédios históricos e igrejas antigas. É obvio que falta dinheiro para a restauração e manutenção do patrimônio, mas ainda assim, Rio Pardo tem uma arquitetura impressionante.

Eu planejava acampar na beira do rio, mas como cheguei no dia dos Reis Magos, iam ter festa lá e muito barulho. Decidi por um hotel.

Vi o Mauricio numa esquina e perguntei dele se sabia dum hotel baratinho. Num instante, ele decidiu virar o meu guia turístico particular. O Mauricio é um fazendeiro e a mulher dele tem uma farmácia de manipulação no centro da cidade. Os dois são pessoas finíssimas.

Guardei a minha bicicleta dentro do hotel que ele me indicou, mudei de roupa e fui levado de carro pelo Mauricio por toda a cidade. Terminamos nossa rota turística num bar na beira do rio onde comemos uns petiscos de peixe frito deliciosos.

Essa noite eu caminhei pela cidade, ainda iluminada para o Natal. Arcos de luzes coloridas estavam pendurados dum lado ao outro das ruas. Cada quadra tinha pelo menos duas árvores de Natal, artificiais, mas bonitas. As cores refletiam das fachadas antigas, suavizando os estragos do tempo.

Dormi como uma pedra. Tomei um café da manhã imenso e pedalei os 30kms a Sta. Cruz do Sul. Eu queria visitar a loja de bicicletas de Luiz Faccin já que não deu para visitá-la o ano passado quando pedalei às Missões.

A loja é magnífica: três andares e um porão cheio de todo tipo de bicicletas e peças de bicicletas. E, o melhor de todo, pendurado da parede, um quadro speed de 60cm em aço e desenho italiano. É de meu tamanho! Quero comprá-lo. O Luiz também me mostrou a bicicleta que ele vai pedalar no próximo Audax, mas não sei se posso revelar esse secreto.

Quando ia embora, vi que o meu pneu traseiro estava furado. Já que uma loja de bicicletas é o lugar ideal para furar um pneu, deixei a Vovô-Matic nas mãos de Luiz para ser concertada e fui almoçar. Que luxo.

Foi no restaurante que vi a manchete do jornal: "Espera-se uma temperatura de 40 graus". Eram as 13:00 e a temperatura já chegava aos 35 graus.

Para sair de Sta. Cruz do Sul sentido Vale Verde tive que subir um morro, um morro íngreme. Em quanto subia, a temperatura subia comigo. Chegou o momento em que eu não tinha a energia para pedalar mais. Empurrei a Vovô-Matic um quilômetro e meio até a entrada da 287 e fiquei sentado debaixo da sombra duma árvore por 15 minutos para recuperá-me. Depois de comprar mais um litro e meio de água num boteco, peguei a estrada. Daí pra frente não foi tão ruim.

Vale Verde tem uma pousada. Não tem letreiro, mas fica nos fundos da parada de ônibus. O lugar é até agradável. Os quartos são limpos e amplos. Só que o quarto que me mostraram era quente como um forno. Eu não queria pagar para dormir num forno.

Ainda era cedo. Achei que podia pedalar os 40kms até o Parque de Pesca Panorama e acampar lá. Foi o que fiz. Para os que não conhecem o lugar, o Panorama é uma combinação de mercadinho, bar, restaurante, clube de snooker e clube de pesca onde os ciclistas que participam dos Audaxes param para comer e refrescá-se. Irma, a dona, me deu as bem-vindas, deixou eu escolher duas árvores para pendurar minha rede e me deu um copo de suco de uva caseiro. Dormi como um anjinho.

O domingo foi do cacete. Quando saí do Panorama às 7:00, já fazia 30 graus. Ás 10:00 chegou aos 40. Perto de General Câmara parei num posto de gasolina para calibrar os pneus e comprar água. Cometi o erro de ler um termômetro. Fazia 45 graus.

Eu vestia uma camisa de algodão branco com mangas compridas. Foi como resisti o sol. O boné debaixo do meu capacete protegia a minha cabeça do calor. Untei tanto bloqueador solar nas minhas coxas que elas ficaram brancas. Botei meias brancas sobre meus sapatos porque eles são pretos e ficaram tão quentes que queimavam meus pés. Parava em qualquer pedacinho de sombra para tomar água. Bebi mais de 8 litros em dez horas.

A coisa piorou quando atravessei a ponte sobre o Guaíba e entrei em Porto Alegre. Não havia brisa alguma nas ruas e os prédios refletiam o calor. Perseverei e cheguei a três quadras de minha casa. Demorei quase uma hora para subir essas três quadras. Não tinha as forças para subir no pedal. Não tinha as forças para empurrar a bicicleta. Contava os metros entre uma árvore e outra e descansava 5 ou 10 minutos debaixo de cada uma. Por fim cheguei em casa.

A minha mulher me deu as bem-vindas,
- Meu Deus do céu. Pareces com um camarão.

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Rio Pardo
A three-day bicycle trip that covered more or less 385kms.

Last week, I planned to leave on a bike trip to Rio Pardo on Wednesday. On Monday, my house's plumbing decided to get plugged up. The plumber promised to show up on Tuesday. He didn't. The guy also didn't show up on Wednesday. Monsieur the Plumber finally showed up to fix the pipe on Thursday. I started my trip on Friday just in time for the heat wave.

(See the Portuguese section for the route.)

Distances (according to my map):
Porto Alegre to Rio Pardo 160kms
Rio Pardo to Sta. Cruz do Sul 30kms
Sta. Cruz do Sul to Vale Verde 50kms
Vale Verde to Porto Alegre 145kms

I left my house at 7am. As one leaves Porto Alegre, three bridges go over the Jacuí Delta State Park. Hundreds of rag pickers and aluminum can collectors live on the park's three main islands. Piles of trash surround their shacks. Small fishing communities also live on those islands. They sell wonderful fried fish. A dozen extremely expensive mansions with yachts docked in their back yards add a little social irony to the landscape.

I crossed the bridges and pedaled to the 290. Those 25kms have what can be found along the edge of any main highway: gas stations, a tollbooth, tire stores and restaurants. It's a good idea to buy water along this stretch of road because the next 25kms just has rice plantations and a small airport.

The landscape begins to change after that. The road starts to climb a series of rolling hills. Cattle ranches line the road. I think that cows like cyclists. They always look at me with a lot of sympathy. I passed the Guaíba Country Club and, afterwards, the MST "Country Club". The MST is an agrarian reform movement. Their camps are mostly shacks made out of black plastic tarps. The rich and the poor were doing the same things, drinking beer, having barbeques and bathing; the poor in a stream, the rich in their swimming pools.

It's worth the time to stop in Arroio dos Ratos (Rat Creek) for a refreshing dip, to buy lunch and to visit the Coal Museum, the first coal fired electric generator in Brazil.

After eating a Xis (two pie sized pieces of bread with a fried egg, salad, peas, corn, cheese and about half a pound of ground meat or chicken inside), I continued on to Butiá, about 25kms past Arroio dos Ratos. It's the place to buy water and a snack and, if you're going to get a flat, the best place to get one is outside the luncheonette next to the tire repair place, like I did. There's no place to buy anything for the next 42kms until you reach the little market in Pântano Grande (Big Swamp). I went north on the 471 and pedaled 25kms more, crossed the bridge over the Jacuí river and arrived in Rio Pardo (Brown River) at 6:30pm.

You should know that the first paved road in Rio Grande do Sul is in Rio Pardo. Everyone wanted me to know that bit of information. Now, you know it too.

I took a spin around the little city, full of historic buildings and ancient churches. It's obvious that there's not enough money for the restoration and maintenance of the historic sites, but, even so, Rio Pardo's architecture is impressive.

I planned to camp by the river's edge, but, since I arrived on the day of the Three Wise Men (they used to bring gifts to the kids until Santa took over), the city was going to have a music festival there. It was going to be too noisy so I decided to look for a hotel.

I saw Mauricio standing on a street corner and asked him if he new of a cheap hotel. In an instant, he decided to turn into my private tourist guide. Mauricio is a rancher and his wife owns one of the pharmacies in town. They are a lovely couple.

I put my bicycle away in the hotel that Mauricio pointed out, changed my clothes and was driven to all the historical sites in Mauricio's car. We finished our tour in a bar by the river's edge where we had a delicious fried fish.

I walked around the city that night. It was still lit up for Christmas. Arches of colored lights were hung from one side of the streets to the other. Each block had at least two Christmas trees. They were artificial, but still, they were pretty. The colored lights reflected off the ancient facades, softening the damage time had made.

I slept like a rock, had a huge breakfast and pedaled the 30kms to Sta. Cruz do Sul. I wanted to visit Luiz Faccin's bicycle store since I didn't get a chance to go there when I made a bicycle trip to the Missões (Jesuit Missions) last year.

His store is great: three stories and a basement filled with all types of bicycles and bike parts. And, best of all, he had an old racing frame hanging from a wall. It was 60cm, my size. Steel! Italian! I want to buy it. Luiz also showed me the bicycle that he plans to ride in the next brevet, but I don't know if I should reveal his secret.

When I was leaving, I saw that my rear tire was flat. Since a bicycle store is the best place in which to have a flat, I left the Vovô-Matic in Luiz's capable hands and went to have lunch. What a luxury.

I saw the newspaper headline in the restaurant, "100 degree temperatures expected today." It was 1pm and the temperature was hovering in the 90's.

To leave Sta. Cruz do Sul on my way to Vale Verde (Green Valley), I had to climb an escarpment, a steep escarpment. While I was climbing, so was the temperature. Finally, I just didn't have the energy to pedal any more. I pushed the Vovô-Matic 1.5kms until I reached the intersection with the 287. I sat panting in the shade of a tree until I recuperated. After buying another liter and a half bottle of water in a little bar, I hit the road. From there on, it wasn't too bad.

Vale Verde has a hostel. It doesn't have a sign, but it's behind the bus stop. The place is even nice. The rooms are clean and big. The thing was that the room they showed me was as hot as an oven. I didn't want to pay to sleep in an oven.

It was still early. I figured that I could pedal the 40kms to the Panorama fishing camp and camp there. That's what I did. The Panorama is a combination of market, bar, restaurant, pool hall and fishing camp where the cyclists that participate in the Audax brevets stop to eat and refresh themselves. Irma, the owner, welcomed me, let me pick out two trees from which I could hang my hammock and gave me a glass of homemade grape juice. I slept like a little angel.

Sunday was hell on wheels. When I left Panorama at 7am, it was around 85. The temperature reached 100 by 10am. I stopped at a gas station near General Câmara to put some air in my tires and made the mistake of looking at a thermometer. It was 110.

I was wearing my long sleeved white cotton shirt. It was how I coped with the sun. The cap under my helmet protected my head from the heat. I applied so much sunblock on my thighs that they were white. I put white socks over my shoes. They're black and got so hot that they were burning my feet. I stopped in every patch of shade I could find and gulped down water. I drank more than 8 liters in 10 hours.

Things got worse when I crossed the bridge over the Guaíba and entered Porto Alegre. There wasn't a breeze in the streets and the buildings held in the heat. I persevered and got within three blocks of my house. They're three blocks up a hill. It took me almost an hour to push my bike up those three blocks. I didn't have the strength to pedal. I counted the meters between one tree and the next, resting 5 or 10 minutes under each one. Finally, I got home.

My wife welcomed me, "God in heaven. You look like a shrimp."

sábado, dezembro 31, 2005


Lami



Pedalando No Calorão.
(in English after the Portuguese)

Chegou o verão e com o verão chegou o calorão. Aqui em Rio Grande do Sul é comum a temperatura chegar aos 38 ou 40 graus. Ciclista cair duro no chão durante um passeio longo também é comum.

Eu não entendo, não. Tem pessoas que saem quase nuas para pedalar debaixo dum sol de rachar as pedras. Se não estão nuas, vestem Lycra preta. Não levam água suficiente e não bebem a água que levam. Não usam protetor solar. Depois de pedalar durante três horas essas pessoas ficam assadas pelo sol, vermelhas que nem camarões, totalmente desidratadas e desmaiam. Não é para menos.

Ninguém me escuta. Quem vai escutar um velho carrancudo? Eu sempre aconselho pedalar vestindo uma camisa branca de algodão leve e com mangas compridas durante um calorão. Eu as compro no brique por R$5,00. Quando ficam sujas demais e não dá para lavá-las, eu as jogo fora. Pronto. Essas camisas protegem os meus braços do sol melhor de que uma camiseta. A cor branca e a evaporação do suor diminuem a temperatura do meu corpo dum jeito muito eficiente. Além disso, eu acho chique a combinação duma camisa social e bermudas de ciclismo :-)

Eu compro o protetor solar com o maior fator de proteção que consigo achar (mais de 30 é bom) e boto bastante no meu rosto, pescoço e pernas. Pareço com um palhaço com o meu nariz e pômulos brancos, mas é a melhor proteção contra o câncer da pele.

Muitas pessoas são fãs de bebidas como Gatorade e pós ou misturas hidratantes. Eu bebo água e como bolachas salgadas. Sempre levo pelo menos 1,5 litros de água e dois ou três pacotinhos de bolachas.

O meu ritmo de pedal durante um calorão é o seguinte: Pedalo por 15 ou 20 minutos até achar uma boa sombra. Paro e bebo uns goles de água. Como uma bolacha. Continuo pedalando. Cada parada é de 30 segundos ou menos, mas esses segundos fazem a minha temperatura baixar, a minha circulação melhorar, fico hidratado com um nível de eletrólitos estável e me dão a oportunidade de desfrutar da paisagem.

Porque estou escrevendo sobre isso? Porque há dois dias pedalei ao Suco. Não sei se o Suco tem outro nome. Isso é o que o pessoal chama o lugar. Letreiro não tem. É um pequeno negócio à beira da estrada que vende pasteis, sucos naturais e um almoço simples. O Suco fica no Lami, uma comunidade a 35 quilômetros de minha casa. Passei outros ciclistas quando fui lá. Ian sufocados e vermelhos. Ian vestidos de preto. Levavam caraminholas pequenas e vazias. Era um dó só de olhar pra eles. Isso não é diversão, não. Também não é saudável.

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Pedaling In The Heat.

Summer is here (I'm way South of the Equator) and with it comes the heat waves. Here, in Rio Grande do Sul, it's common for the temperature to reach 95 or 100 degrees. It's also quite common for cyclists to keel over during long rides.

I just don't understand it. There are people that go out riding under a broiling sun almost nude. If they wear clothes, they wear black Lycra. They don't carry enough water and don't drink the water they do carry. They don't use sunblock. After pedaling for three hours, roasting under the sun, these people are as red as shrimps. They are completely dehydrated. No wonder they faint.

Nobody listens to me. Who's going to listen to a cranky old man? Anyhow, I always suggest that people pedal wearing a light weight long sleeved cotton shirt during a heat wave. I buy them at the thrift store for US$2.00. When they get too filthy and won't wash clean any more, I throw them out. Those shirts protect my arms better than a T-shirt. The white cotton and my evaporating sweat are very efficient in bringing down my body temperature. I also think that the combination of a dress shirt with cycling shorts is a very chick fashion statement :-)

I buy the highest UV factor sunblock that I can find (anything over 30) and cover my face, neck and legs. I look like a clown with my white nose and cheeks, but it's the best protection against skin cancer.

A lot of people swear by drinks like Gatorade and hydrating powders and mixtures. I drink water and eat Saltines. I always carry at least 1.5 liters of water and two or three packages of crackers.

My pedaling rhythm during a heat wave goes like this: I pedal for 15 or 20 minutes until I find a nice patch of shade. I stop and take a couple of sips of water. I eat a Saltine. I go on my way. Each stop takes 30 seconds or less, but those seconds lower my temperature, improve my circulation, stabilize my hydration and electrolyte levels and give me an opportunity to enjoy the view.

Why am I writing about this stuff? Because I pedaled to The Suco (The Juice) two days ago. I don't know if The Juice has another name. That's what people call it. It doesn't have a sign. It's a small roadside stand that sells meat pies, natural juices and a basic lunch. The Juice is in Lami, a community 35kms from my house. I passed other cyclists on the way there. They were red and out of breath. They were wearing black. They had tiny empty water bottles. It was painful to look at them. That's no way to have fun. It's not even healthy.

quarta-feira, dezembro 28, 2005


ilha da pintada

Frustração.
(in English after the Portuguese)

Depois de tirar os pontos de meu lábio, eu estava com saudades da turma do pedal. Fazia muito tempo que eu não participava dum passeio. Troquei a catraca de 22 dentes por uma de 18 dentes, o que dá a Vovô-Matic uma velocidade média de 20kms/hra, consultei a lista Bike-RS e vi que tinha um passeio agendado à Ilha da Pintada para comer peixe na taquara.

Para os que não sabem o que é isso, peixe na taquara é como um churrasco de peixe. O peixe inteiro é espetado num pedaço de bambu, adubado com sal grosso e fritado sobre as brasas até ficar dourado. É delicioso.

Só que o passeio não saiu até 45 minutos depois da hora marcada, metade do pessoal se perdeu (numa ilha com uma estrada só) e, entre conversa vai e conversa vem, o almoço demorou duas horas. Eu perdi a paciência e voltei para Porto Alegre sozinho.

Tentei participar do passeio na segunda-feira. Hora da saída, 20:00 horas. Lá pelas 20:45 eu perguntei,

- Mas à que hora vão sair?
- Acho que a gente sai ás 21:00.

Eu não quis esperar por mais tempo assim que sai pedalando sozinho.

O passeio da quarta-feira demorou 30 minutos em sair. Voltamos a Porto Alegre à meia noite depois de inúmeros pneus furados. Um passeio de duas horas demorou quatro. Não estou reclamando pelos pneus furados. Isso acontece. Mas, levar um grupo de principiantes, muitos deles sem ferramentas ou luzes, por um trecho de rodovia escuro como a boca dum lobo é uma loucura.

O passeio da sexta-feira demorou 30 minutos em sair. Mais uma vez, um passeio de duas horas virou um de quatro. Eu perdi a paciência e voltei pra casa sozinho.

Eu gosto da camaradagem dos passeios, mas eu acho muito frustrante ficar sentado num posto de gasolina quando o que quero é pedalar. È muito frustrante fazer um percurso de uma hora e meia ou duas horas em quatro horas. E é muito frustrante ver a desorganização e o desleixo estragar os passeios em Porto Alegre.

Ou tudo pode ser o desabafo dum velho carrancudo.
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Frustration.

After I had the stitches taken out of my lip, I found myself missing the group rides. I hadn't participated in one for a long time. I traded the 22 tooth freewheel on the Vovô-Matic for a 18 tooth one, which gives the bike an average speed of 20kms/hr, checked the Bike-RS list and saw that there was a ride going to the Ilha da Pintada (Painted Island) for a fish-on-a-taquara lunch.

For those that don't know what that is, it's like a barbecued fish. The whole fish is seasoned with rock salt and held in a piece of split bamboo over live coals until it is a golden brown all over. It's delicious.

The thing is that the ride didn't start until 45 minutes after it was supposed to. Half of the participants got lost on an island with only one road. The lunch lasted for two hours with no sign of ending. I lost my patience and returned to the city alone.

I tried to go on the Monday night ride. It was scheduled for 8pm. At 8:45pm, I asked, "At what time is everyone going to leave?"

"I think we'll be ready at 9."

I didn't want to wait any longer, so I went and pedaled around the city by myself.

The Wednesday night ride left 30 minutes late. We returned to Porto Alegre at midnight after fixing a bunch of flat tires. A two hour ride took four hours to complete. I'm not complaining about the flat tires. That's normal. But, to take a group of beginning riders, many of them without any tools or lights, along a pitch black stretch of highway, is crazy.

The Friday night ride's start was delayed for 30 minutes. Once again, a two hour ride turned into a four hour ride. I lost my patience and returned home alone.

I like the group rides, but I find it very frustrating to sit in a gas station when I want to be out pedaling. I find it frustrating to take four hours to do a two hour ride. What's most frustrating is to see disorganization and carelessness ruin the bike rides in Porto Alegre.

I may feel this way because I'm a cranky old man.

domingo, dezembro 04, 2005



São Paulo
(in English after the Portuguese)

Fazia muito tempo que eu não me encontrava num meio ambiente como o de São Paulo. Acho que a última vez foi há quinze anos, quando visitei Cidade México e hoje em dia, segundo um jornal que li, São Paulo é maior que a capital Mexicana.

Qual foi a minha impressão da maior cidade neste hemisfério? O barulho ensurdeceu-me, a poluição me sufocou. A multidão na Rua 25 de Março me horripilou. As distancias são enormes. Requerem um investimento de tempo também enorme para vencê-las. Gostei de alguma coisa? Sim, do metrô. É eficiente, seguro, limpinho e rápido. Comparado-o com a pocilga cheirando a mijo que é o metrô de Nova Iorque, o sistema paulistano pareceu-me milagroso.

Tentei achar alguém que me emprestasse uma bicicleta. O dono duma livraria em Santo Amaro, um fã das Caloi 10 clássicas, me emprestou uma. Pedalar pelo bairro por quinze minutos fez-me bem.

Quando eu voltei a Porto Alegre, dei um suspiro de alívio e abracei a árvore no meu quintal. Também, estava todo empolgado. Eu tinha deixado a Vovô-Matic com o Eurico para ele tirar as peças e montá-las no quadro Trek que comprei. Ia ter uma bicicleta nova!

Ele deixou a Vovô-Matic 2 linda e maravilhosa. Eu levei-a para casa, ajustei o canote, os freios, o guidão e saí para dar uma pedaladinha. Que bom é pedalar uma bicicleta do tamanho certo!

Derrapei num pouco de areia. Saí voando e beijei o asfalto. Eu dei uma olhada para ver se tinha deixado meus dentes no chão. Não vi dentes nenhum. Pedalei até um posto de gasolina e lavei os meus ferimentos. No espelho do banheiro vi que meus dentes não estavam quebrados, mas o meu lábio superior estava rasgado até o nariz. Comprei uma garrafa de água gelada, fiz bochechas até o sangue parar e pedalei para casa.

Costuraram meu lábio no pronto socorro. O meu pulso esquerdo dói. Os meus cotovelos doem. O que mais me dói é que eu tinha planejado um pequeno passeio de três dias e agora não vou poder fazer a viagem antes do Natal. Com o meu lábio inchado, eu pareço com uma anta. Putz!

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It's been a long time since I've been in an environment like São Paulo's. I think that the last time was fifteen years ago, when I visited Mexico City. Nowadays, according to a newspaper article that I read, São Paulo is larger than the Mexican capital.

What were my impressions of the largest city in this hemisphere? The noise deafened me. The pollution suffocated me. The crowds along 25 de Março street horrified me. The distances are enormous, requiring an equally enormous investment in time to travel from one place to the other. Did I like anything? Yes. I liked the subway. It's efficient, safe, clean and fast. Comparing it to New York's piss smelling pigsty of a subway, São Paulo's system seemed to me miraculous.

I tried to find someone that would lend me a bicycle. Finally, the owner of a bookstore in Santo Amaro, a fan of the classic Caloi 10 (a well designed entry level 10-speed that was manufactured in Brazil for 20 years. Now, unfortunately, extinct), lent me one. Pedaling around the neighborhood for fifteen minutes did me a world of good.

I sighed with relief when I returned to Porto Alegre. I went out into the backyard and hugged a tree. Another thing, I was all excited. I had left the Vovô-Matic with Eurico so that he could strip it and install the parts on the Trek frame that I had bought. I was going to have a new bicycle!

He did a marvelous job on the Vovô-Matic 2. I took it home, adjusted the seat, the brakes and the handlebars and went out for a spin. It's great to pedal a bike that's the right size!

I slid on a bit of sand. I went flying and kissed the ground. I looked around for teeth. Since I didn't see any, I pedaled to a gas station and washed my face. I saw in the bathroom mirror that none of my teeth were broken, but my upper lip was split to my nose. I bought a bottle of cold water, rinsed out my mouth until the blood stopped and pedaled home.

My lip was sewn up in the emergency room (for free, one of the advantages of socialized medicine). My left wrist hurts. My elbows hurt. What hurts the most is that I had planned a three day trip. Now I won't be able to do it before Christmas. With my swollen lip, I look like a tapir. Shit!

sábado, novembro 12, 2005

www.frappr.com/bicibrasil

Eu recebo e-mails dos lugares mais estranhos do mundo. Agora Google tem um brinquedo novo onde um leitor deste blog pode indicar num mapa a posição geográfica dele.

Os convido a brincar.

I get e-mails from the strangest places.
Now Google has a new toy that allows a reader of this blog to indicate their geographical location on a map.

You are invited to play.

sexta-feira, novembro 11, 2005

Nas Últimas Três Semanas.
(in english after the portuguese)

Houve protestos por causa do ciclista atropelado, protestos duma hora. Houve discursos. Houve artigos no jornal. E agora que? Cadê os 10,000 pára-brisas quebrados? Eu penso que uma vida vale pelo menos 10,000 pára-brisas. Cadê o centro da cidade paralisada por milhares de ciclistas? Bueno basta de hostilidade.

O baú para a bicicleta que eu costurei tem agüentado por 200 quilômetros sem rebentar. Parece que vai funcionar muito bem. Agora eu vejo como posso melhorar o desenho dele, mas sou preguiçoso demais para costurar mais um. Vou esperar até o próximo inverno. O que vou fazer é costurar uma bolsa para o guidão. Pesei o baú. Pesa 200 gramas, não 100 como eu tinha escrito aqui.

Comprei um quadro Trek de 59cms. Por fim um quadro adequado para minha altura! Eu acho que saiu caro, pelo menos mais caro que o custo do quadro fora do Brasil, mas há mais de dois anos que eu estou procurando um quadro de aço, de meu tamanho e com gancheiras horizontais que permitam o uso de uma marcha só. Não vou reclamar muito, não.

A pintura do quadro está boa, mas ainda assim eu vou pintá-lo de preto. Não me sinto confortável pedalando um quadro importado pela rua. É um convite para um assalto.

During the Past Three Weeks.

There were protests and demonstrations because of the cyclist that was run over. They lasted about an hour each. There were speeches by local politicians. Articles were published in the paper. And now what? Where are the 10,000 broken windshields? I think that a life is worth at least 10,000 windshields. How come downtown was not paralyzed by thousands of cyclists? That's enough hostility. It really doesn't solve anything.

The bicycle trunk that I made has held up for 200kms without bursting. It seems like it's going to work. Now I know how to make the design better, but I'm too lazy to sew another one right now. I'll wait until next winter. What I am going to do is to sew a handlebar bag out of the same material. I weighed the trunk. It weighs 200 grams, not the 100 that I had written down here.

I bought a 59cm Trek frame. At last I have a frame that's the right height for me. I think that I paid too much for it, certainly more than the frame is worth outside Brazil, but I've spent more than two years trying to find a steel frame the right size that has horizontal dropouts so that I can run a single speed. I can't complain too much.

The paint is OK, but I'm still going to paint it black. I don't feel comfortable pedaling an imported frame in the city. It's an invitation to get mugged.

sábado, outubro 22, 2005


Mais Um Ciclista Assassinado.
(in english after the portuguese)

Quando eu cheguei, já tinham colocado um cobertor sobre o corpo. A bicicleta estava perto, no chão.

- Que aconteceu?
- Atropelaram um cara.
- Morreu?
- Morreu na hora.

E lá estava o motorista falando com o advogado dele no celular.

- O cara se jogou na minha frente. Não deu para eu reagir.

Do grupo Bike-RS:

"Foi atropelado e morto na manhã deste sábado o triatleta e pró-reitor de extensão da Universidade Federal do Grande do Sul Antônio Carlos Stringhini Guimarães, 51 anos. Ele estava treinando com um grupo na Avenida Edvaldo Pereira
Paiva, nas proximidades do estádio Beira-Rio."


Eu pedalo por essa avenida todos os dias. Os carros passam como bólidos.

Do grupo Bike-RS:

"Essas são as multas registradas na placa do Corolla que atropelou o matou um ciclista na manhã deste sábado na Beira-Rio, em Porto Alegre:

Descrição Valor(R$) Local Situação 22/12/2002 18:38 POLICIA ROD.FEDERAL
E001829910 6211 EXC.VELOC.ATE 20%MAX 127,69 BR 290 km 54 Paga 12/01/2003 22:10
BRIGADA MILITAR - RS C481429 5452 ESTACIONA FAIXA PEDEST/.. 127,69 AV.
MOSTARDEIRO, 3186 Paga 15/11/1998 11:41 DAER - RS E000069995 6220
EXC.VELOC.ALEM 20%MAX 574,61 RS/389 KM 13,8 Paga 31/12/1999 14:19 DAER - RS
E000321198 6211 EXC.VELOC.ATE 20%MAX 127,69 RODOVIA RS/040 Km 33/0 m Paga
30/08/2000 18:38 PORTO ALEGRE-RS 440607 5550 ESTAC.C/PLACA PROIB.ESTAC 85,12
ANDRADAS 1766 Paga 25/08/2005 15:04 PORTO ALEGRE-RS 960208 7366 DIRIG.FONE
OUVIDO/CELULAR 85,12 CONDE DE PORTO ALEGRE/FARRAPOS Aguarda prazo 29/07/2005
08:05 PORTO ALEGRE-RS 1036613 7366 DIRIG.FONE OUVIDO/CELULAR 85,12 PRAIA DE
BELAS 2270 BC Aguarda prazo 01/02/2002 15:05 PORTO ALEGRE-RS E001511052 6220
EXC.VELOC.ALEM 20%MAX 574,61 AV.PE CACIQUE, DEFRONTE N 970 Paga 24/08/2004
14:25 PORTO ALEGRE-RS E002549650 6211 EXC.VELOC.ATE 20%MAX 127,69 AV PE CACIQUE
1178
- B/C Vencida"


Eu fiquei olhando para o vulto no chão. Só dava para ver as sapatilhas do ciclista. Não vi sangue nenhum. O que fazer? Gritar?

- Assassino!
- Filho da puta!

Dar um chute no motorista?

Do grupo Bike-RS:

"Quando o Poti me ligou há pouco, eu estava pedalando com minha filha no Parcão. Bem no exato momento que ia atravessar a esquina da Comendador Caminha com 24 de outubro com ela.

Fiquei besta, e na hora olhei pra minha filha, feliz em sua bike cor-de-rosa ao meu lado e pensei "e se fosse com ela ??" " e se fosse qui, nesta esquina, agora ?..."


Quinze ou vinte ciclistas olhavam a cena, passivos, silenciosos. Os policiais estavam aborrecidos. Os motoristas aceleravam com raiva depois de passar o engarrafamento.

Do grupo Bike-RS:

"Notícias

22/10/2005 14h22min
Trânsito
Pró-reitor de Extensão da UFRGS morre atropelado na Capital
Antônio Carlos Stringhini pedalava na Avenida Beira-Rio

O pró-reitor de extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Antônio Carlos Stringhini Guimarães, de 53 anos, morreu na manhã deste sábado, dia 22, vítima de um acidente de trânsito. Guimarães, que era triatleta, andava de bicicleta pela Avenida Edvaldo Pereira Paiva, mais conhecida como Beira-Rio, em Porto Alegre, quando foi atropelado por um Corolla.

Guimarães era doutor em educação física formado pela UFRGS, com mestrado em Biomecânica pela Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, e doutorado em Cinesiologia pela Universidade de Calgary, no Canadá. Apaixonado por esportes, se dedicava à prática do ciclismo e era membro da Federação de Triatlo do Rio Grande do Sul.

As circunstâncias da morte ainda serão investigadas, mas ciclistas que se reuniram no local afirmam que Guimarães foi vítimas do excesso de velocidade e desrespeitos dos motoristas. Entre outras reivindicações, eles pretendem exigir a colocação de pardais na Beira-Rio.

O motorista do Corolla, Roberto da Silva Corletto, foi submetido a exame de teor alcoólico e toxicológico pela polícia. Guimarães era casado e tinha um filho."


Eu continuei pedalando pela Beira Rio. Os motoristas, como sempre me passavam a 50, 60, 70 kms/hora. O limite é de 40. Eu sou um ciclista, desapreciado, invisível, um paria. A minha vida não vale a demora duns segundos na trajetória dum motorista. Filhos de putas.

Do grupo Bike-RS:

"NOTA DE FALECIMENTO
22/10/2005

A Universidade Federal do Rio Grande do Sul participa, com pesar, o falecimento de seu pró-reitor de Extensão, Antônio Carlos Strighini Guimarães, ocorrido hoje. O velório será realizado na Sala Fahrion (Av. Paulo Gama, 110 – 2º andar da Reitoria). O corpo será cremado amanhã , às 10h30min, no Crematório Metropolitano."


Pois aí está. Mas a gente tem que ser educado durante as Bicicletadas. Nada de confronto. E nem pensar em atrapalhar o transito ou de intimidar os motoristas. Não, nada disso. Temos que ser bonzinhos, comportados, inofensivos e temos que morrer da mesma maneira, desapercebidos.

Do grupo Bike-RS:

"O professor Stringhini foi atropelado por um Corolla. Ele estava pedalando com um grupo, junto ao meio-fio, no sentido da via, com capacete e a parafernália toda. A colisão ocorreu por trás. Pelo que vi nas fotos, não houve nada com a bike, mas o corpo do professor bateu no pára-brisa e no teto do veículo. O retrovisor do carro, do lado do passageiro, ficou no chão da pista. Nas fotos, o
selim da bicicleta está desalinhado. O quadro não parece amassado, assim como os aros. Uma das fotos está no link da notícia do ClicRBS.

A reportagem de Zero Hora, mais um comentário nosso, está sendo publicada na edição de domingo, mas somente para os jornais destinados aos assinantes (100 mil exemplares). A edição de domingo já estava rodando quando a informação sobre o acidente chegou à redação.

Desde 1998, há registro de nove multas no Corolla: cinco por excesso de velocidade, duas por estaciomento em local proibido e duas por falar ao celular ou utilizar fone de ouvido enquanto dirige."


Another Cyclist Is Murdered.

When I got there, they'd already covered up the body with a blanket. The bicycle was lying on the ground close by.

"What happened?"
"A guy got run over."
"Is he dead?"
"He died instantly"

The driver was on his cellular, talking with his lawyer, "The guy got right in front of me. I couldn't do anything."

Paraphrased from the group Bike-RS:

"This Saturday morning, the triathlete and extension vice regent of the Federal University of Rio Grande do Sul, Antonio Carlos Stringhini Guimaraes, 51, was run over and killed. He was training with a group along Edvaldo Pereira Paiva Avenue, close to the Beira Rio Stadium."


I pedal along that avenue every day. The cars zoom by me.

Paraphrased from the group Bike-RS:

"There is a long list of traffic infractions attributed to the vehicle."


I kept on looking at the lump on the ground. I could see the bicycling shoes sticking out from underneath the blanket. I didn't see any blood. What to do, yell?

"Assassin!"
"Son of a bitch!"

Kick the driver?

Fifteen or twenty cyclists looked on, passive, silent. The cops were bored. Cars accelerated, the drivers in a rage, after passing the traffic jam.

I kept on pedaling along the Beira Rio. The drivers, as they always do passed me doing 50, 60, 70 on a 40 km/hr zone. After all, I'm just a cyclist, ignored, invisible, a pariah. My life is not worth a few seconds delay along a motorist's trajectory. Sons of bitches.

There it is. So it goes. But, we have to show good manners during Critical Mass. No confrontations. Don't even think of snarling traffic or intimidating the drivers. None of that. We have to be well behaved, nice, inoffensive and have to die the same way, unnoticed.

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